Os efeitos colaterais invisíveis das pequenas batidas

batida de carros
Parece que o para-choque do Sandero só desencaixou? Mas sob a peça o dano foi bem maior (Christian Castanho/Quatro Rodas)

Aquela batidinha não fez quase nada no pára-choque?

Cuidado, pois o prejuízo pode ser maior do que você pensa.

Cena comum no trânsito: uma freada e, de repente, aquela batidinha inocente no pára-choque. Os dois motoristas descem, olham, constatam que não foi quase nada e vão embora. O que pouca gente sabe, no entanto, é que mesmo um toque aparentemente inofensivo pode ter danificado componentes importantes do veículo e, no futuro, se transformar em um problema maior.

Esse tipo de dano vem sendo estudado pelo Centro de Experimentação e Segurança Viária (Cesvi), que alerta: os danos invisíveis podem trazer muito prejuízo não só ao bolso, mas também à segurança dos ocupantes.

“Em geral o pára-choque dos automóveis de passeio é feito para suportar impactos de até 8 km/h. Essa é a velocidade em que são feitos os testes das montadoras, para que os danos não sejam propagados a outros componentes. O problema é que, no dia-a-dia, costumamos ter batidas piores sem que o veículo sofra nenhum tipo de alteração estética”, afirma Emerson Feliciano, supervisor técnico do Cesvi. “O motorista acha que não foi nada, mas algumas peças podem ter sido completamente danificadas, ainda que à primeira vista o carro esteja ótimo.”

Nesses casos, o problema é que o crash-box (também conhecido como travessa) pode ter sido afetado, comprometendo não apenas a segurança, mas também componentes importantes, como o airbag, se a colisão for na dianteira. “Com essa peça danificada, numa segunda batida o airbag pode ser acionado quando não for o momento certo. Ele pode abrir mais cedo, mais tarde ou nem abrir”, diz Feliciano.

 

O crash-box ou travessa (1) é responsável pela absorção de energia em impactos de baixa velocidade. Quando é amassado (2), o crash-box se deforma para evitar danos à ponta da longarina (3) ou até ao condensador do ar-condicionado (4). O reparo é simples: basta desparafusá-lo e colocar outro
O crash-box ou travessa (1) é responsável pela absorção de energia em impactos de baixa velocidade. Quando é amassado (2), o crash-box se deforma para evitar danos à ponta da longarina (3) ou até ao condensador do ar-condicionado (4). O reparo é simples: basta desparafusá-lo e colocar outro (Christian Castanho/Quatro Rodas)

Isso pode ocorrer porque o crash-box é um dos principais responsáveis pela absorção de impactos. Assim, a desaceleração, que é o que define a abertura ou não do airbag, fica comprometida. Sem contar o risco de acidente, só o custo para substituir o airbag que abriu à toa é de no mínimo 3.000 reais.

Se a travessa estiver capenga em razão de um impacto anterior, uma segunda batida na dianteira pode afetar ainda itens como radiador e condensador, entre outros – um conserto que não sairia por menos de 1.000 reais. Também pode afetar peças estruturais como a longarina, muito mais complexa, demorada e cara para reparar (uma média de 3.000 reais).

Assim, um segundo impacto no mesmo local pode fazer o custo do reparo mais que dobrar. O número de peças afetadas, então, chega a triplicar.

Segundo o técnico do Cesvi, o conserto caso não seja substituída a travessa na primeira vez salta de uns 1.200 reais para 3.000 reais. “Nesse segundo impacto, um dos itens que mais sofrem são os faróis, que serão afetados.” Por isso, o ideal numa pequena colisão seria levar o carro a uma oficina para verificar a extensão do dano.

 

Este é o estado do Sandero sob o pára-choque: o crash-box à direita foi destruído
Este é o estado do Sandero sob o pára-choque: o crash-box à direita foi destruído (Christian Castanho/Quatro Rodas)

 

Essa ameaça oculta pode afetar até quem vai comprar um usado. Quantos veículos que estão nas lojas podem estar com a travessa danificada – e cujo próprio dono nem desconfia? Por enquanto não há estatísticas a respeito, mas o que se sabe é que muitos carros que rodam por aí com o pára-choque apenas arranhado podem estar com esse sério problema.

E nessa hora quem paga o pato são as oficinas. O mecânico Vinicius Losacco diz que é muito comum encontrar esse tipo de ocorrência na vida real. “Por fora não se vê nada. O pior é que não dá para saber quantos carros estão afetados. É ruim até para os funileiros, que passam um orçamento e depois tomam um susto na hora que tiram o pára-choque. Aí tem de aumentar o valor, e o cliente acha que ele está dando golpe.”

Fonte de Pesquisa: Quatro Rodas

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